Tarologar: leitura e escrita

O Tarô estereotipado

 

“Kelma, por que você não escreve sobre tarô?”.
“Porque eu já escrevo, só não crio estereótipos”.

 

Esse diálogo se repete com frequência em minha caixa postal, mensagens de Facebook e nos fatídicos encontros sociais. Existe um fator introdutório nessa questão que é a tendência natural do ser humano sempre buscar aquilo que não tem e reparar no que falta, preferindo não valorizar o que já existe. Como por exemplo darmos valor à vida quando perdemos alguém que amamos, sentir falta de quem se ama quando está longe, criticar um ator de comédia porque deveria fazer drama e vice-versa. Indivíduos aprendem com a falta, não com a presença. Em meu caso, se eu escrevesse só sobre tarô, seria requisitada certamente para falar sobre outra coisa. O fator essencial, além do introdutório, é que sou daquelas que acredita que o tarô se vive, não se estereotipa. É claro que aprendi tarô de todas as formas, desde a intuitiva até as mais técnicas, mas chegando ao 20 anos de profissão percebo que a esquematização é erro duplo: fere quem estuda e fere quem é analisado pela leitura semi-pronta.

 

Escrever sobre esse tarô didático costuma servir mais para meus colegas ou concorrentes do que para meus clientes e seguidores. A função é limitada, porque se eu enfatizar a parte fria da carta da Justiça, estarei restringindo todo o processo vivenciado pelo consulente e direcionando o aluno para o “decoreba”. É comum o consulente fazer uma consulta de tarô e depois tirar dúvidas no Google. Semelhante a uma consulta médica, na qual obtemos prescrição de um anti-inflamatório e após lermos a bula no Google decidimos não tomar(um erro, mas acontece). No tarô é usual o aluno/aprendiz perguntar por que o Imperador é do elemento terra e do signo de capricórnio, já que ele leu num site famoso esses dados, então supõe que seja verdade.

 

Quando rejeitamos a prática e vivemos na teoria, saímos da realidade. E só jogando, atendendo, estudando, praticando veremos que existem inúmeros Eremitas soltos por esse mundo de meu Deus. Milhares de Papisas e Magos, cada um em sua história, e consequentemente impossíveis de serem comparados. A fenomenologia explica, pode crer. Junte o aspecto fenomenológico com a história de vida de cada um e verá que estereotipar pode ser um empobrecimento sem retorno. No famoso seriado Downton Abbey, durante um diálogo entre personagens sofridos, surge a frase: “Não somos nós que mudamos, é a vida que muda a gente”. Eis que o empirismo se mostra em todo o seu esplendor esclarecendo que cada um tem sua experiência e sua trajetória. Não é possível catalogar algo que demanda impressões digitais diversas.

 

É por esse motivo que não escrevo “sobre tarô”. Escrevo sobre a vida, que contém os símbolos do tarô e esses símbolos dançam em cores diferentes, a cada episódio. Conto uma história com cara de Torre, relato um fato com cheiro de Julgamento, critico um comportamento típico da Estrela. Mas nada disso vai encerrar o conhecimento simbólico, que é algo inesgotável. Assim temos as cartas embaralhadas num método e descobrimos as mais variadas possibilidades. Combinações que jamais se encerram. Não dá para escrever “sobre tarô”. Não é possível definir que o Mundo é bom ou ruim, porque o seu Mundo pode ser ótimo e o meu pode ser uma verdadeira catástrofe. Sua Torre pode doer, a minha pode libertar. Variações. Fenomenologia. Empirismo.

 

Não espere de mim setas nem definições fechadas. O único livro que escrevi até hoje sobre o tarô reúne artigos inspirados pelas cartas em eventos cotidianos. Exemplos, alusões, desafios. Nada de definição. É claro que graduados e graduandos torcem o nariz para meu estilo informal, me definindo como alguém que pretende (portanto pretensiosa) escrever sobre comportamento sem ser psicóloga/jornalista ou filósofa/socióloga (portanto também incauta). Rotulam como autoajuda sem saber diferenciar autoajuda de autoconhecimento. Mas a realidade é sempre mais simples do que se pressupõe. A realidade nesse caso mostra que tarô e a arte de viver se entrelaçam e não há como viver qualquer experiência sem que ela esteja impressa em vários momentos de cada carta, consciente ou inconscientemente. A verdadeira presunção incauta é a expectativa de enclausurar uma alma dentro de uma pequena caixa de prata. Viva e aprenda, o Tarô está em tudo, não é preciso denominá-lo para que ele exista.

 

Kelma Mazziero ®

 

 

Aconselhamento ou mercado de peixe?

 

Trabalho com tarô há mais de 20 anos. Trabalho duro. Tanto no sentido de atender, dar aula, escrever, prestar consultoria para quem deseja se atualizar; quanto no sentido de propagar formas mais humanizadas de usar o tarô. Como assim?

 

Quando proponho um olhar humanizado sugiro simultaneamente uma proposta menos mágica. Isso porque se torna difícil trabalhar com o tarô e isso não é de hoje. Meu trabalho é tido como informal, como exótico, como coisa de quem não tinha mais nada para fazer da vida ou até como coisa de quem adivinha futuro dos outros enquanto toma uma cafezinho. Veja bem, o que faço não é absolutamente nada disso, por isso cheguei ao ponto de começar a propagar uma nova conduta em relação ao tarô. Uma conduta mais séria, menos carregada de misticismos e que fosse acessível àquelas pessoas que não estão a fim de serem atendidas por quem use turbante ou alguém que resolva todos os problemas na base da simpatia (leia-se magia).

 

Não me venha dizer que não é uma luta digna, por favor. Há espaço sobrando para quem se fantasie e para quem jogue em “lives” do Facebook gratuitamente. Há espaço para quem joga tarô a partir da data de nascimento do cliente (?) e também há espaço para quem pergunta sobre o signo do parceiro (?). Mas perceba: há pouco espaço para quem quer analisar as cartas sem precisar se fantasiar, nem adivinhar o futuro ou misturar assuntos prometendo seu amor de volta. Simplesmente quase não há espaço. Então, oras bolas, fui buscar esse espaço de forma honesta, sendo franca e explicando que não, não sou adivinha, nem uma mulher super poderosa tampouco uma bruxa dos tempos da inquisição. Fui estudar, me relacionar com outras áreas de conhecimento e achar meios de trabalhar do meu jeito. Não é que eu queira “engessar o tarô”. Na verdade quem diz isso fica super mal na foto, porque estudo não é gesso. E quem diz isso mostra não apenas um fundo de recalque como assina um atestado de alguém que despreza/ignora a importância dos estudos (portanto, um ignorante). Mas Kelma, o tarô é místico!

 

Então, pelo amor da minha saúde mental, entenda. Não, o tarô não é místico. Tarô surgiu como um jogo de azar, com objetivo lúdico, além de ser linguagem visual (portanto, trata-se de arte, inclusive porque era feito por artesãos). Tarô se tornou possibilidade oracular no século 18 (!). Isso significa que quatrocentos anos DEPOIS de seu surgimento o tarô se tornou ferramenta oracular. Sabe o que isso significa? Que não, tarô não é místico. Nem vou esticar aqui a explicação sobre o surgimento do termo místico, ficaria um texto gigantesco e hoje temos quantidade limitada de caracteres se quisermos ser lidos. Por isso, se contente com o fato de que tarô não foi inventado para ser usado por pessoas mágicas e poderosas que adivinham futuro. Dessa forma, eu posso sim usá-lo como um conjunto de imagens que permitem associações, analogias e estudos imagéticos na busca por aconselhamento e não querer fazer um show de mágica. Se eu tenho algo contra quem usa o tarô com cunho mistificado? Não. Mas tenho muita coisa contra quem ME etiqueta como alguém que corta o barato dos outros porque propago por aí que quero praticar tarô de forma civilizada.

 

Aqui chegamos ao cerne da questão. Grande parte do preconceito que todos sofremos, enquanto tarólogos, está na própria maneira que a maioria pratica o tarô. Enquanto o tarô for enaltecido como cheio de magia, de promessas, mesclado a elementos místicos , não haverá como querer que o público entenda a imagem das cartas com naturalidade. Enquanto a gente se fantasiar, a gente será tratado como uma mentira. Não tem muito segredo. Por isso, pergunto: o quanto colaboramos para carregar ainda mais a imagem de picaretagem à nossa profissão? São as pessoas que são preconceituosas ou nós, que para vendermos nosso peixe, reforçamos as fantasias que depois não se despregam do imaginário social? Creio que seja um serviço a quatro mãos o da construção distorcida a respeito do tarô.

 

O cerne é esse: você colhe o que semeia. Se semeia um tarô mistificado, será sim visto como enganador. Uma pena, mas é assim que funciona. Nada contra sua opção, mas então enfrente-a com tudo e não reclame do preconceito, da discriminação, da grana pouca. Porque junto dessa prática mistificada vem mais um tanto de gente que nunca estudou e também vai pegar seu quinhão, ou mesmo atender sem cobrar dizendo que seu dom é divino, afinal não é uma prática informal? Então pense, pense o que você está semeando antes de reclamar o que vem colhendo.

 

Quanto a mim, sigo em meu caminho. Prefiro sim o estudo, prefiro a pesquisa, prefiro o agendamento, prefiro a aula, prefiro a programação do conteúdo da aula, prefiro o aconselhamento.  Respeito o que faço e respeito quem atendo ou ensino. Estou semeando isso, sei muito bem o que desejo colher. Só que, até chegar onde pretendo, terei que lidar com os revezes, os dedos apontados, os olhos virados. A postura clássica de quem não quer ter tanto trabalho na própria profissão, a postura indolente de quem me enxerga como uma pessoa que engessa algo que deveria ser livre.

Sigo meu caminho. E deixo a pergunta aqui: e você, está semeando o quê?

 

Kelma Mazziero ®

 

 

O ego e o maior problema de todos

 

Passar por uma consulta de tarô requer humildade. Sim, a humildade é um requisito primordial, porque antes de tudo é preciso estar aberto(a) a receber orientações de alguém, e, num segundo momento é preciso ser humilde para admitir que seu problema tem solução.

 

A vida contemporânea dificulta a convivência com o ego devidamente controlado, afinal de contas, hoje tudo é competição, comparação e empreendedorismo (até o casamento e os filhos passam por esses estágios). Tenho que ser a melhor profissional, a melhor amiga, a melhor esposa, a melhor mãe, a melhor faxineira, a melhor filha, a melhor em tudo ou qualquer coisa. E claro, tudo isso é pontuado usando padrões externos como referência, ou seja, outras pessoas que estão fazendo mais sucesso que eu. Então me comparo, compito e empreendo nessa busca de superação constante. A vida virou um ranking, um placar de pontuação, um manual certinho para registrar em redes sociais. Com isso as pessoas foram adquirindo ares de super poderosas, perdendo completamente o controle de seus egos.

 

Isso nos traz ao tema de hoje: problemas sem solução. O problema do egoísta, ou do egocêntrico, é sempre o maior problema de todos. Maior e pior. Nunca tem solução e nenhuma saída serve. Porque, claro, meu ego precisa carregar consigo um trunfo: o problema mais cabeludo de todos, o dilema insolúvel, a encrenca que milagre algum pode dar jeito. Conselho nenhum aqui serviria porque ninguém pode ajudar aquele que tem um problema acima da média.

 

Muitos dizem que problema não se compara, uma vez que cada um sente sua dor à sua maneira, mas isso não é verdade. Não basta chorar mais alto para garantir que o cancelamento da manicure seja pior que estar sem plano de saúde em tempos de crise. Para isso chamamos o bom senso e a capacidade de relativizar as coisas, encontrando assim, uma forma de entender que problemas fazem parte da vida e justamente por isso pedem saídas, soluções e superações.

 

O grande salto é abandonar a necessidade de problematizar ou aumentar a intensidade de tudo para conseguir viver a vida normal, de quem tem problema e os enfrenta, sabendo que não se é melhor (ou pior) que ninguém por isso. A vida já é difícil, imagina se a gente colocar ainda mais drama nela, como ficaria? Pois é, ficaria como está atualmente.

Nesse contexto é que costumo respeitar e admirar muito meus clientes e alunos. Quando eles procuram um apoio, uma luz ou uma orientação estão permitindo que o ego desocupe o controle de suas vidas e para permitirem que alguém trabalhe em cima de suas verdadeiras prioridades e necessidades. Buscar orientação é acreditar que a vida pode ser simples, jamais simplória, estando disposto ou disponível para encarar os caminhos que dependerão exclusivamente das decisões dessa mesma pessoa.

 

Buscar conselho, portanto, não é fraqueza e nem superstição. Buscar conselho é humildade e vontade de avançar em direção à própria vida. Assim como escreveu Nietzsche: “Este mundo é a vontade de poder [potência] – e nada além disso! E também vós mesmos sois essa vontade de poder [potência] – e nada além disso!”. Como vê, não cabe ego aqui, mas sim, cabe viver a vida como ela é. Dessa forma as orientações serão pontos de luz em seu caminho e jamais o atestado para problemas insolúveis que te iludem a respeito de uma auto importância destrutiva.

 

Kelma Mazziero ®

 

 

Para ler tarô é preciso deixar o medo de questionar

 

Você pode ter feito todos os cursos de tarô que ficou sabendo. Pode ter estudado e lido todos os livros a que teve acesso. Pode ter aprendido com os melhores profissionais do ramo. Pode ter feito tabelas, apostilas, impresso ou copiado inúmeras anotações. Mas nada disso garante que se sinta segura (o) de sua leitura. Por que diabos isso acontece?

 

Num primeiro momento isso acontece porque faz parte do trabalho ou da prática oracular. O dia em que for jogar para outra pessoa e não sentir absolutamente nada, fique com um pé atrás, pode ser sinal de soberba ou de alienação. A hesitação faz parte, ela é um componente da leitura responsável, ela te lembra que você está cuidando ou analisando a vida de outro ser humano. Ela é útil, garante que você não passe dos limites numa consulta. Assim como é normal sentir medo antes de falar em público (até os palestrantes e oradores mais experientes sentem aquele friozinho na barriga) é também comum que você hesite mediante as cartas. Afinal, ali, tudo depende de você. É bastante responsa!

 

Num segundo momento isso pode ser um sinal de que você depende demais de certezas para praticar o que precisa. Ou seja, você pode ter se tornado aquela pessoa que precisa cobrir todas as possibilidades, decora todas as combinações e se certifica de todas as técnicas para então não travar na frente de um consulente. Mas veja, se chegou a esse ponto, a hesitação deixa de ser saudável e começa a se tornar uma mania. E uma mania perigosa. Dessa forma, ao longo do tempo você pode ter criado um medo incontrolável de errar e, com esse medo, perdeu a noção de que parte do jogo requer espontaneidade e mente livre para analisar o que estiver ali exposto.

 

Como distinguir entre um e outro? Como saber se o medinho que você sente é saudável ou uma mania? Simples, pautando essa sensação na prática. Ou seja, se você não consegue jogar para outras pessoas, então faz parte do grupo dos que vivem um medo constante de errar e prejudicar outra pessoa. Caso você sinta esse medinho, mas nem por isso perde a chance de praticar com outras pessoas, saiba que isso é normal e é até bom que esteja ali para te manter alerta.

 

Não há como ser um tarotista sem errar, pois é com os erros que se aprende e se compreende melhor uma configuração de jogo. E é nessas horas que a humildade cumpre seu papel: admitir que é possível errar e ser transparente com o consulente pode ser uma chave essencial na interação com quem estiver solicitando sua leitura.

 

Junte essa hesitação (normal) à capacidade de adaptação e mais humildade e você terá bons jogos, com feedbacks úteis de seus consulentes, aprendendo a cada tiragem e se desafiando a não criar uma expectativa insólita (tanto sobre si quanto sobre suas capacidades). A pessoa que faz um curso de um final de semana e joga para todo mundo, certamente, precisa de freios e aprofundamento. Porém, a pessoa que estuda muito e nunca se sente apta precisa aceitar o risco de aprender em tempo real durante a leitura criando assim seu próprio histórico de percepções e interpretações dos arcanos.

 

Para fechar: aprende quem questiona. Aprende quem está disposta (o) a rever o que sabe em busca de avançar cada vez mais. Aprende quem não tem vergonha nem pavor de olhar os próprios erros e questionar cada um deles para justamente recriar sua atividade. O questionamento leva à reflexão e ao aprimoramento. Ter medo de analisar um jogo é, claro, normal. Mas ter medo de questionar não, não é um bom sinal.

 

Assim como as cartas, a gente vive assumindo novos possibilidades e interpretações. E pode acreditar que, se em você existe o desejo de prever tudo, acertar tudo e saber de tudo, haverá também o vazio de não abrir jamais espaço para o inusitado que ensina para muito além de tudo aquilo que você já decorou em toda a sua vida.

 

Kelma Mazziero ®

 

 

Conselheiros mimados

 

É comum a polarização em quase tudo na vida contemporânea. Se a gente prestar atenção vai perceber que na política é quase obrigatório escolher um lado, na vida familiar e social também, além de enfrentarmos isso nas coisas mais sutis. Essa busca pela escolha de um lado ou a necessidade de se posicionar unilateralmente acontece porque queremos nos sentir numa zona segura do cotidiano. Polarizar dá a sensação de conforto e de assentamento. É como fugir da realidade de uma maneira politizada. Melhor ainda, é como ter a ilusão de que tudo na vida é passível de escolha e, portanto, dá para identificar amigos e/ou inimigos a partir das semelhanças e/ou diferenças. Se sou bom, então não sou mau.

 

Esse comportamento gera certa dificuldade em compreender as sutilezas da vida. Dificulta também o respeito ao outro. É um comportamento que alimenta indivíduos mimados que não dão conta de lidar com qualquer tipo de rejeição. Perdemos, portanto, a capacidade de conviver com as diferenças ainda que estejamos em tempos de intenso acesso à informação. A posição cômoda de “achar seu grupo ou sua tribo” cria intolerância com a diversidade, atrapalha o pensamento questionador, bloqueia a reflexão e coloca todo o foco da vida nos próprios desejos. Retrocedemos, então, à infância onde a questão toda da vida gira em torno do próximo brinquedo.

 

Tempos que nos alertam, enquanto tarólogos, para o estudo e aprofundamento das questões intrínsecas e dos temas que amalgamam o “bem e o mal”. Afinal, basta ter superado a adolescência para saber que separar tudo em duas caixinhas, a do bem e a do mal, é perigosíssimo. Como fazer com a mãe que é legal, mas não me deixa jogar tudo para o alto, ela é boa ou má? Como fazer com o parceiro que me dá carinho, mas me mostra meus piores defeitos em momentos de fragilidade, ele é bom ou mau? Sendo assim, quando adentramos a vida adulta entendemos que certo e errado podem estar num mesmo tema (ou pessoa) se tornando inseparáveis. Não falo aqui de relativizar coisas óbvias, mas sim, de conviver com as nuances que estão caindo em desuso a cada dia que passa.

 

O tarólogo que não entende isso vira um tirano. Normalmente somos pagos para orientar e dar conselhos (e aqui nem vou me infiltrar nos tarólogos que não cobram pela atividade, isso é outro assunto). Porém, o tarólogo que não entende que seu trabalho é analisar o símbolo, interpretar a carta num jogo e dar ao consulente a prerrogativa de usar aquele conselho (ou não) se torna um profissional autoritário que exige que o outro faça tudo como o jogo determinou. Como assim a pessoa me procura, me pede ajuda e não faz o que eu falei? Por que alguém solicita orientação e depois segue por outro caminho? Quem a pessoa pensa que é para ocupar meu tempo e não seguir o que eu disse?

 

A resposta é simples. Se o profissional enxerga seu conselho como algo pessoal, então, sim ele vai ficar esperando que o consulente faça o que ele “mandou”. Contudo, se o profissional entender que o consulente está pagando pelo serviço e está usando o livre arbítrio na hora de resolver o que precisa, surgirá a compreensão de que o destino do outro não está nas mãos do tarólogo. E jamais deveria estar.

 

Tarólogo deve entender o limite de sua atuação e lidar com isso. Não deve exigir que o consulente faça as coisas à sua maneira nem esperar coisa alguma. Sua função é analisar/interpretar o jogo. A função do consulente é ouvir (ou não) e seguir a própria vida tomando as decisões como julgar melhor. Se não houver esse entendimento o tarólogo somente se permitirá aconselhar quando souber que o consulente fará o que ele determinou (e então, não é relação profissional, é relação de subordinação emocional). E, além disso, reclamar ou se queixar porque o consulente sempre faz “a coisa errada” também denotará imaturidade emocional.

 

Cada um tem sua identidade e seu estilo. Não apenas o tarólogo tem sua maneira de trabalhar como o consulente tem sua forma de lidar com esses conselhos. No entanto, o que a pessoa fará com o que foi lhe oferecido é problema dela. Do contrário estaremos ferindo o direito mais básico que o Tarô nos permite conhecer, o direito ao livre arbítrio. Lembre-se: o aprendizado do cliente é lidar com o problema ou amadurecer nele, o nosso aprendizado enquanto profissional é respeitarmos o que for definido sem nos envolvermos na situação. Enquanto houver respeito na interação entre tarólogo e consulente, o que será feito dali por diante não nos diz respeito. Uma vez a mensagem analisada, interpretada, decodificada, transmitida e compreendida, o próximo passo não nos compete  participar e palpitar. E se não é possível entender essa dinâmica, então, repense seu trabalho e o que deseja fazer com o Tarô.

 

Entender o Tarô é entender  as questões humanas na vida. Querer viver essa mesma vida no lugar do outro não facilitará seu crescimento como profissional e nem o direito que o outro tem de seguir o próprio caminho.

 

 

A gente não quer só verdade

 

É possível que um novo visitante ou cliente leia alguns dos meus textos e ache uma afronta pessoal, afinal, escrevo bastante sobre conduta em atendimento. Pessoalmente, prefiro ver como um FAQ, um punhado de textos com perguntas e respostas que acontecem frequentemente durante as leituras,  que pode facilitar o preparo da consulta ou o momento que a antecede.

 

Ao longo de mais de 20 anos jogando o tarô posso afirmar que a verdade não é a melhor amiga do homem. E não vejo mal algum nisso para ser bem franca. Não vejo mal algum pelo simples fato de que a realidade pode ser amarga ou isenta de cores nos momentos em que mais precisamos de vitalidade. Ou seja, a ilusão se torna necessidade quando aquilo que se vive na prática não está de acordo com o merecimento e as expectativas. Fica fácil pregar por aí que “não ter expectativas é a melhor solução” ou que “a verdade sempre liberta”. Claro, fica fácil quando a vida está sob controle e não tem aquela coisinha maldita doendo o tempo todo, silenciosa, atrapalhando o passado, o presente e o enevoando o futuro.

 

Esse medo da verdade é o que chamo de desafio da vida madura. Já vivi e presenciei outras pessoas nesses momentos que são tipicamente testes de sobrevivência e superação adulta. Aquelas escolhas que fazem uma tríade com a coragem e o conflito (ainda falarei sobre isso aqui); aquela necessidade de jogar toda a responsabilidade nas costas de outra pessoa para se sentir menos pesado; além  dessa situação à qual me refiro agora, que é a linha tênue entre ilusão e verdade. Sei que preciso da verdade, mas adoraria viver a ilusão. Repito que isso é normal e até saudável. A realidade o tempo todo tira o brilho e as cores da vida. Porém, buscar aconselhamento quando a vontade de ser iludido está maior que a de ouvir a verdade pode ser um tiro no pé.

 

Não basta dizer para o tarólogo que você quer ouvir a verdade ainda que ela doa. É preciso que você esteja realmente apto ou pronto para isso. Confiar no profissional a ponto de ouvir dele algo totalmente inesperado, doloroso ou angustiante é um gesto de entrega sem igual. Não é à toa que o bom tarólogo respeita seus clientes como respeita seus mestres. Porque cliente preparado se entrega e só quem está ali vendo todo o momento e a circunstância sabe o quanto isso demanda maturidade e fé. Da mesma forma que a escolha implica em conflito e requer coragem (a tríade que mencionei acima), a verdade requer um passo para a maturidade usando da fé inabalável. Seria a representação da Justiça, que atesta a realidade, com a busca do Eremita na maturidade e a fé da Estrela que suporta o inexplicável.

 

Para tirar proveito de uma consulta é preciso que haja entrega e para se entregar é essencial ter confiança. A inflexibilidade de lidar com respostas realistas esperando que aconteçam milagres é o sinal de que você precisa, antes de querer a verdade, estar pronto para ela. Sem medo, sem defesa arrogante, sem impulsividade, apenas consciente de que escolheu a pessoa certa para te orientar e te esclarecer no que for preciso usando da empatia e do respeito.

 

É por isso que a busca da verdade não deve ser um rompante ou uma bandeira. A busca da verdade requer consciência do degrau em que se encontra para que essa mesma verdade não se torne sua maior inimiga.

 

Kelma Mazziero ® 

 

 

O  S.O.S  do tarô

 

Existe uma situação que atravessa a vida do tarólogo em algum momento de sua trajetória. Às vezes acontece mais de uma vez e com frequência, aliás. São as urgências nos atendimentos. Aqui chamo de S.O.S., mas cada um lida com essa questão de uma maneira diferente, apelidando como prefere. Eu chamo assim porque é aquele pedido de socorro que te pega no meio do mercado, da faxina, do compromisso ou até de outro atendimento.

 

É claro que incomoda, porque a gente sabe bem que as pessoas que estão em meio ao caos, dificilmente conseguirão perceber as circunstâncias quando solicitam consulta imediatamente. Ou seja, a pessoa desesperada, em dor ou sofrimento, raramente consegue notar que aquele que a ajudará não pode e nem sempre estará disponível naquele exato momento. Dor é dor, não dá para pensar muito antes de gritar, sabemos disso.

 

A questão é, tirando esse primeiro momento em que um precisa e o outro não pode (ou não consegue), existem outros detalhes que devem ser considerados. Um deles, pelo menos que acontece comigo, é que atender alguém no desespero serve para pouca coisa. Normalmente as cartas que saem não ajudam em absolutamente nada. Torre para quem acaba de sofrer um choque, Pendurado para quem está sem saída, 2 de Espadas para a crise, Enamorados para as eternas indecisões. Ou seja, as cartas só radiografam o que o cliente já sabe. Dá um alento, mas não resolve muita coisa. Outro ponto é a dificuldade de comunicação. Quando se está desesperado ou sofrendo é difícil ouvir o que não quer e isso piora muito porque a pessoa vai tentar perguntar a mesma coisa mil vezes, esperando ouvir resposta diferente e…não vai acontecer. E por último, o estado de espírito. Quem está machucado não tem noção do quanto pode machucar os outros porque está sem discernimento. Por isso, a consulta fica difícil, lenta, arrastada e às vezes desrespeitosa com frases : “O que você quer dizer com isso?”; “Não, não, não, você não sabe o que está dizendo”; “Ué, mas se for para ouvir isso então nem preciso jogar”. Uma vez machucado, machucar o outro é mais fácil do que se imagina.

 

Percebe como não é produtivo gritar na hora do desespero? Pedir ajuda, sim. Contratar um serviço, não. Especialmente porque quem perde com isso, normalmente, é o cliente. O estado emocional afeta a consulta, a interação e a dinâmica, além de poder atribular também o resultado e o entendimento. Para análises interpretativas e compreensão é importante que você considere os valores, agende com antecedência e se prepare para isso, afinal, não se trata de proceder como se fora um Pronto Atendimento hospitalar. Quando temos algum desconforto e não é emergencial, buscamos os consultórios médicos, agendamos a consulta e vamos preparados para ela. No hospital vamos quando é algo realmente urgente e inesperado. Nos casos do Tarô essa segunda alternativa não se aplica, pois tanto para entender seu momento quanto para lidar com problemas intensos é fundamental o preparo. Pensar nas questões, analisar os objetivos e escolher quem poderá fazer isso para você, tudo isso faz diferença para obter aconselhamento apropriado.

 

Na hora da correria e do desespero é comum aceitar qualquer valor, qualquer condição e até determinar tempo, porque a gente sempre acha que o problema é rapidinho, é só “sim ou não”. Mas não, não funciona assim, e nem o problema deveria ser tratado dessa forma. Junte-se a isso a sensibilidade normal de estar abalado (a) e a chance de não conseguir o que precisa aumenta muito. O cliente que não aceita os procedimentos de agendamento sugeridos pelo tarólogo acaba indicando que não está disposto a mudar coisa alguma, inviabilizando assim qualquer conselho que poderia ouvir durante a análise. Se não houver condição de respeitar a agenda, como será ouvir algo delicado durante o atendimento?

 

Sua vida espiritual, suas emoções e seus dilemas pessoais merecem atenção. E você deve, precisa, estar em condições para compreender e elaborar tudo o que será analisado. Evitar o ato “desesperado” é uma forma de entender que a ajuda será necessária, mas nem por isso, precisa acontecer às pressas ou às avessas. Respeite a si e ao seu momento buscando também seguir o processo que envolve uma consulta de orientação. Para o tarólogo será uma consulta, e se for um bom profissional, ele fará o possível para te ajudar. Muitas vezes o profissional muda a própria rotina, os próprios compromissos e sua agenda para te atender, pois ele sabe como uma pessoa fica quando está nervosa, angustiada ou ansiosa. Porém, grande parte das vezes, o cliente que está assim desmarca, cancela, fura o compromisso e quando aparece está sem condições de entender o que surge no jogo podendo vivenciar tudo aquilo que descrevi nesse mesmo texto,  acima, tornando algo precioso em algo sem função ou sem sentido. Culpa do cliente? Não. Culpa do tarólogo? Não. Culpa de ninguém. Mas sem dúvida algo que pode ser evitado e repensado.

 

E o mais importante é o objetivo desse texto. Não é para te criticar, para reclamar de quem pede ajuda em desespero e nem para delimitar coisa alguma. É esclarecer. Fazer aquilo que não dá para fazer quando a consulta ocorre às pressas. Porque, acredite, o bom tarólogo sabe como você está se sentindo e é treinado para lidar com isso. Mas ele sabe também que se todo o processo de agendamento e preparo forem respeitados, tudo poderá suceder muito melhor e com maior produtividade. Estamos aqui para te ajudar, não para te iludir.

 

Kelma Mazziero ®

 

 

Com quantas cartas se faz um bom jogo?

 

Meu laboratório de trabalho é a prática profissional. Aprendo jogando, entendo enquanto observo, absorvo enquanto analiso. Por isso costumo defender a prática oracular. Muita gente diz que não precisa jogar tarô para saber tarô. Eu não concordo com isso, acho que a prática permite a aquisição de habilidade tanto para entender melhor a simbologia (e sua aplicação), quanto para manter o estudo em dia.

 

Como taróloga, na prática da consulta encaro algumas situações repetitivas. Uma delas é a necessidade que o consulente tem de entender o que faço, como faço e quais as “garantias” de minhas respostas. Com o tempo alguns aceitam que garantias não existem, que faço o que faço com dedicação e que minha prática é muito mais analítica que preditiva. Mas algumas questões não somem com o tempo. E a mais comum é me perguntarem durante a leitura: “Você vai virar mais cartas ou só com essas já vê o que precisa?”.

 

Quando se trata de cliente novo tento ser didática, pois sei que faz parte da fase em que a racionalização do processo poderá ajudá-lo a entender o que eu digo e acreditar naquilo. Para clientes já conhecidos raramente consigo controlar alguma piada para quebrar o gelo, afinal de contas, se número de cartas garantisse adivinhação, deveríamos trabalhar com progressão geométrica, assim possibilidades se multiplicariam conforme novas cartas fossem associadas.

 

O fato é que o número de cartas num jogo muda pouco, infelizmente. Digo infelizmente porque se houvesse uma fórmula mágica que garantisse que, virando mais uma cartinha, eu obteria a resposta sem dúvida alguma… adotaria a prática cotidianamente. Porém, não é assim. Tarô deixa espaço de liberdade de ação, então, não adianta virar as 78 cartas que a resposta ainda estará em sua mão quando for preciso dar um novo passo, mudar ou decidir qualquer coisa.

 

Se o tarólogo joga a tão famosa Mandala, a Cruz Celta ou o jogo de 3 cartas não faz diferença. O que importa é você confiar no tarólogo e ele estar confiante para fazer seu jogo. Não resolve pedir mais uma carta para tirar a milésima dúvida ou forçar mais respostas, não muda nada fazer 5 jogos numa única leitura. Conheço profissionais gabaritados que fazem jogos de 3 cartas do começo ao fim e são excelentes. Assim como conheço outros profissionais, igualmente gabaritados, que usam as 78 cartas e também trabalham lindamente. Não é o número de cartas que vai tornar sua vida mais amena, é sua maneira de traduzir e adaptar a leitura que fará toda a diferença.

 

Acredite que a forma como uma consulta é feita não mudará o que será lido ou dito naquele momento. Se há um ponto de chegada – o entendimento – a forma como se alcançará esse ponto é indiferente. Assim como para chegar numa cachoeira algumas pessoas vão a pé, outras de bicicleta, outras de motos e outras ainda de Jeep, na consulta o objetivo deve ser alcançado independente da quantidade de cartas selecionadas. A cachoeira não estará mais bonita e nem mudará de lugar conforme sua maneira de ir até ela. Estar acompanhado da pessoa certa, sim, fará diferença para conseguir concluir sua trilha.

 

Esqueça um pouco as parafernálias todas que se prometem hoje em dia. Isso vale para tudo, aliás. Mantenha sua atenção e seu foco na confiança entre você e o profissional de sua escolha, não compare consultas pelo número de cartas ou jogos realizados, nem tente dar um Google em algumas das cartas citadas para ver se acha “alguma coisinha a mais”. Livre-se da sensação de ser uma pessoa irrelevante ao achar que o que foi feito por você poderia ter sido melhor ou que o profissional selecionado não tem condições de te ajudar. Você é e sempre será a figura mais importante numa leitura de Tarô, e isso por si só impede esquecimentos ou desinteresse por parte do tarólogo. Se com 1 carta aquela pessoa consegue clarear seu caminho, o objetivo foi alcançado. Trate seu processo pessoal como único, indivisível e intransferível, para que tudo faça sentido dentro de sua realidade e não precise ser comparado a outro para ser mais ou menos importante.

 

O que vale não é o jogo, o método, o número de minutos ou de cartas usados. O que importa de fato é você enxergar seu caminho e dentro dele recuperar seu poder pessoal para agir, decidir, escolher e mudar o que for necessário.

 

Kelma Mazziero ®

 

 

Tarô contemporâneo

 

Costumo usar esse termo com frequência e confesso que ultimamente tenho usado cada vez mais esse conceito, que se trata de olhar para o tarô -em qualquer uma de suas funções- com visão atualizada. É uma forma de transmitir a ideia de que o tarô que se utiliza hoje pode (e deve) carregar consigo a contemporaneidade, a mentalidade do tempo atual, se encaixando em nossa realidade para fazer sentido de fato.

 

A ideia romantizada de um tarô que adivinha futuro ou desvenda a sorte é nebulosa. Não significa que não tenha valor (nesse contexto, sem interpretação de texto a gente não vai longe). Significa que cada etapa, cada fase, cada época teve seu brilho. Só que, sem a devida adequação, corre-se o imenso risco de carregar o tarô em superstição,  misticismo e ranço consequentemente. Fica parecendo uma coisa caricata mesmo.

 

Dessa percepção que surgiu a minha proposta do tarô contemporâneo, que não é nada além de apresentar o tarô usando uma abordagem atual. Nada de fogos de artifício, nem promessas milagrosas, tampouco vender meu peixe como uma “bruxa poderosa do além”. Nada disso. Menos é mais. Despir o tarô de superstição é urgente, sem isso a gente não sai da visão marginal e desinformada sobre o quanto uma análise simbólica pode ajudar qualquer pessoa num momento mais delicado da vida.

 

Leitura de tarô é interpretar as cartas dentro de um jogo determinado, podendo esclarecer dúvidas, mostrando outro enquadramento da sua realidade, apontando saídas ou detalhes importantes. Você pode entender melhor seu momento profissional, saber como vem lidando com suas finanças, compreender o que um relacionamento significa ou representa em sua vida. Nada disso precisa de religião, espiritualidade ou magia. Precisa só de comprometimento e segurança profissional, para que não careçamos do apego à expectativa já esgarçada do poder adivinhatório.

 

Estamos no século 21. Estamos em tempo de repensar nossa liberdade. Mulheres despertando para seu direito à escolha, minorias exigindo respeito e igualdade, homens redescobrindo a própria sensibilidade e os próprios limites. Todos se dando conta de que o livre arbítrio pode ser uma condenação nalguns momentos mas que, ainda assim, é um valor que nos é relevante por ser o caminho único do amadurecimento.

 

Escolher. Mudar. Agir. Nada disso combina com a impotência de teimar em saber de um destino já traçado desde sempre. É essa mesma racionalidade, que escolhe e se percebe autônoma, que pode interpretar uma carta e analisar um jogo de tarô com olhar contemporâneo e uma fala realista.

 

Desde sua descoberta há séculos atrás o tarô transcendeu os mais distintos momentos históricos, saindo da Europa para alcançar o mundo. Afinal, é de símbolo que estamos falando, eles vivem dentro de nós. E é por isso que, dentro deste século, podemos sim manter a importância da linguagem simbólica sem nos escorarmos no passado, mas respeitando cada etapa para que o dia de hoje seja igualmente importante, conseguindo levar adiante uma ferramenta imagética tão potente.

 

Kelma Mazziero ®

 

 

Tarólogo é espiritualista?

 

Nem sempre.

 

A origem do tarô é lúdica/artística. Não oracular. Traduzindo: as cartas do tarô surgiram como expressão artística e também como distração em jogos de azar. A versão oracular, que a gente “joga para adivinhar” (como tanto dizem por aí), surgiu aproximadamente 4 séculos depois do surgimento das cartas (!).

 

Sendo assim, a gênese dos arcanos não fala de leitura ou adivinhação, tampouco de espiritualidade e acesso a mensagens ocultas do destino. E esse fato, por si só, já não favorece uma visão que ligue sua utilização à qualquer questão espiritual. Tarô era coisa para se jogar (mesmo) e não para desvendar segredos.

 

Com o passar do tempo a versão oracular foi agregada ao baralho, já bem conhecido e disseminado na Europa da época. E, ainda sendo visto como oráculo, não era vinculado a religião ou mesmo a qualquer tipo de elevação espiritual. Primeiro foi confundido com um livro de hieroglifos, depois foi utilizado como uma ferramenta que desvendava o destino e até como caminho mágico. Pessoas o buscavam para acessar respostas às perguntas sobre a vida, o futuro, o amor, o cotidiano. Perceba que no que se refere a espiritualidade mesma não há menção direta. A ideia de que o tarô espiritualiza ou dá status espiritual é mais uma suposição – uma associação – do que realidade.

 

E falando em realidade vale, claro, elucidar o fato de que atualmente tem tarólogos que praticam paralelamente uma religião, tem tarólogos ateus, tem tarólogos “zen”, tem tarólogos terapeutas, tem tarólogo de todo jeito. Essas pessoas podem ter espiritualidade, mas não por conta de jogarem o tarô, e sim porque além de jogar tarô se interessam e buscam uma trajetória espiritual ou um aprendizado dentro da espiritualidade.

 

Logo, um tarólogo pode ser ou pode não ser espiritualizado. Perceba que no mundo contemporâneo espiritualidade não é mais uma questão atrelada à religião, mas a qualquer caminho que favoreça elevação ou mesmo conscientização. Ainda que o estudo do tarô permita o autoconhecimento, a opção em direcionar isso para a vida espiritual ainda é de quem o estuda. Dessa forma, é importante repensar rótulos, reabrir as caixinhas que a gente cria para tentar facilitar o entendimento do mundo e de nós mesmos. A espiritualidade pode estar num crente fiel ou mesmo em alguém que tem consciência de sua missão/trajetória na vida e jamais pisou num templo. Note que a espiritualidade não precisa se manifestar em quem pratica e estuda as cartas.

 

O tarô não é espiritualizado, nem divino, nem tem força sozinho. Só vai existir ou ter sentido se for interpretado (ou jogado ou analisado). E, portanto, não confere poderes a quem o estuda/interpreta. É essencial compreender que a sacralidade que tanto se busca fora de si pode surgir, na verdade, internamente. E que ela pode ser descolada de caminhos, ferramentas, ícones ou mesmo dogmas. A sacralidade pode estar nas coisas simples, pode estar por exemplo presente na vida como ela é. E ser sagrado não é necessariamente ser espiritual.

 

Fato é que num mundo conectado, veloz e plural talvez não seja mais necessário categorizar tanto as pessoas e suas atividades. Desmistificar é uma forma de simplificar sem empurrar tudo para uma visão simplista. Você pode jogar tarô e não ser religioso(a), pode jogar tarô e ser ateu, pode jogar tarô e acreditar em todos os deuses ou deusas que quiser. O tarô conecta, não obrigatoriamente espiritualiza. Seu tarô pode existir com ou sem tudo isso. Porque no final das contas quem aprende é você

 

Kelma Mazziero ®

 

 

Que tarô você joga?

 

Qualquer um, ainda que isso possa soar arrogante de minha parte. Mas não é arrogância, é comprometimento e respeito com quem atendo.  Também não é marketing, é sim responsabilidade.

 

Nas últimas duas décadas o tarô cresceu muito no Brasil, tanto na teoria quanto na prática. Saímos da obscuridade para um movimento em direção à pesquisa e à atualização constante, podendo hoje qualquer pessoa acessar o básico sem precisar entrar para uma ordem hermética de magia ocultista. Grandes autores evoluíram em suas pesquisas e com isso os profissionais puderam melhorar muito em todos os sentidos. Claro, o Google colaborou horrores, não vamos desmerecer a internet nesse processo todo. Só não se atualizou quem não quis, só não mudou quem foi turrão.

 

Perguntas que antigamente eram comuns hoje não são mais, justamente porque as pessoas acessam informações e já procuram o tarô cientes do mínimo. Isso corroborou com minha teoria de que o conteúdo introdutório não deveria ser cobrado jamais, uma vez que todos deveriam ter acesso ao óbvio, facilitando o trabalho do tarólogo  além de permitir mais conhecimento a todos. Chegamos, então, numa época onde é muito raro usar tempo de aula ou de consulta explicando o que é tarô, qual sua finalidade ou mesmo esclarecendo que ele não veio do Egito e não precisa ser jogado apenas por ciganos dotados de vidência. Deslanchamos, finalmente.

 

Porém – e sempre tem um porém – algumas perguntas persistem. Elas persistem porque ainda que se tenha acesso às informações, em alguns assuntos se escolhe manter o clima misterioso. É usual a confusão entre espiritualidade e superstição, então, a prática com o tarô costuma se cercar de certas superstições. Tanto que até hoje tem quem me pergunte se é obrigatório fazer uma oração antes de jogar, se precisa tirar anéis e acessórios antes de pegar nas cartas ou se escolher cartas à distância é realmente como tocar as cartas pessoalmente. Superstições muitas vezes confundidas com reverência, daí meu papel em esclarecer o que for possível, ainda que eventualmente eu arrume problema e cause polêmica com isso.

 

Dentre as perguntas supersticiosas a mais frequente é sobre qual tarô eu jogo. E, quando o (a) cliente é simpático, normalmente eu respondo com outra pergunta:  “Faz diferença?”; ou ainda: “Por que, você tem algum que prefira que eu leia?”. Isso costuma bastar para a pessoa rir e perceber que o tarô que usado pouco importa. O que conta é a responsabilidade para fazer uma leitura. Trabalhar com o tarô envolve estudo e pesquisa constantes, como já mencionei antes, tanto que afora meus estudos normais ainda escrevo e produzo artigos científicos para apresentar em conferências acadêmicas anualmente.

 

Mas se tem uma coisa que não muda é a configuração das cartas. São 78 cartas, faça chuva faça sol. São 78 cartas, sejam colorias ou em sépia. São 78 cartas europeias, brasileiras ou norte americanas. Mas são sempre 78 cartas divididas em 22 arcanos maiores e 56 arcanos menores.

 

Se vou analisar uma configuração com cartas douradas ou vermelhas, vai mudar para o cliente apenas no que se refere à experiência visual. Sim, a experiência visual conta, afinal tarô trata de linguagem imagética. Mas isso não altera o que eu direi à pessoa. O que acontece durante a leitura é uma conexão de informações que se dá através de análise e interpretação. Processo racional que não está ligado ao fato de uma carta me abrir um portal xis ou ypsilon. Uma sessão de terapia não vai mudar por conta da cor da poltrona que o psicólogo usa, acredite.

 

O acesso à informação aumentou, os estudos de tarô avançaram, mas ainda é preciso critério para que não se caia em armadilhas da ingenuidade. O tarô não vai funcionar mais ou menos se eu colocar uma maçã na mesa da consulta, minha leitura não será melhor se eu usar um jogo de cartas que custe uma fortuna, um turbante não garante cem por cento de acerto nas análises. Carregar uma consulta de superstição é calcar o medo em ilusões ingênuas. O caminho, portanto, é e sempre foi o esclarecimento tanto nas informações sobre tarô quanto em sua própria consulta. A experiência mística não reside na forma como alguém pratica algo, mas sim, na sua capacidade de se entregar à clareza de uma orientação bem feita.

 

Kelma Mazziero ®

 

 

Respostas objetivas para perguntas subjetivas

 

Se tarô não é psicanálise por que a consulta tem tantos requisitos? Se não é preciso se concentrar ou ter visões para ler tarô por que eu preciso agendar a consulta? Se eu tiver um problema urgente por que não posso ser atendido (a) na hora? Se não é consulta médica, por que tem uma duração? Se não é uma prática preditiva por que deveria me consultar? Por que tem tarólogo que joga só um jogo e usa poucas cartas? Se é um dom por que eu devo pagar pela consulta? Por que profissionais cobram valores distintos? Se demanda confiança por que preciso pagar antecipadamente? Afinal, por que e para quê tantas regras?

 

Vou responder uma a uma dessas questões. Nem sempre me são feitas diretamente, mas ficam evidentes na conduta de muitos clientes e deixam vestígios no comportamento da maioria.

 

Tarô não é psicanálise e nem deve ser, cada um tem sua função, tanto que é possível fazer análise e se consultar com o tarô. Os requisitos seguem as prioridades que o profissional determina e em sua maioria carregam um sentido que preserva tanto o cliente/consulente quando o tarólogo. Se a prática é profissional deve seguir uma metodologia e ter requisitos mínimos para que haja ali um vínculo profissional e não informal. Os requisitos criam um vínculo seguro para ambos os envolvidos.

 

O agendamento deve acontecer porque é importante perceber o tarólogo como seu semelhante e não como um guru ou alguém super poderoso que não tem vida pessoal. O tarólogo precisa dormir, se alimentar, normalmente tem família e compromissos pessoais, vai ao médico, ao dentista. Nem sempre o tarólogo está desocupado e disponível para atender imediatamente. Ademais o agendamento é uma forma de criar um compromisso, tanto seu quanto do profissional para com você. Agendar é se comprometer, se preparar para a consulta, reservar aquele tempo especialmente para aquilo. O tarô não se joga na correria e no desespero, mas como um momento de auto avaliação e compreensão que deve ser tratado com respeito, foco e dedicação.

 

Se você tiver um problema urgente e quiser ser atendido (a) na hora corre o risco de não encontrar espaço na agenda do profissional. E veja bem, isso não é descaso com seu problema, mas envolve os itens descritos acima. O profissional também tem compromissos e é importante que haja um preparo para essa consulta não ser corrida, enviesada. O tarô não é ferramenta para apagar incêndio e nem para oferecer respostas alimentadas por ansiedade, então, o SOS muitas vezes se vira contra quem acredita estar encontrando respostas imediatas para seus anseios. Pouco há o que ser feito em situações emergenciais. Prefira se concentrar na emergência para depois analisar o que for preciso em consulta devidamente agendada, onde será bem atendido (a) e terá mais elementos à mão para avaliar e encontrar caminhos. No desespero o tarô vai mostrar desespero, não solução.

 

Sobre a duração da consulta já escrevi algumas vezes, mas vale reforçar aqui. O essencial de uma consulta é abordado com a devida atenção e por isso o tempo costuma ser suficiente para isso. Usar mais tempo de consulta para “aproveitar o dinheiro investido” ou tentar consultar a família inteira numa única leitura é desfocar do seu propósito original e misturar assuntos menos importantes com outros extremamente relevantes. Espremer o tarólogo até ouvir o que deseja também não funciona. O profissional até pode dizer o que você deseja ouvir, mas isso não significa que seu desejo vá acontecer. Respeite o valor da consulta, o tempo de duração e a abordagem do profissional. Trabalhe em parceria com quem te atende.

 

Quanto à predição e à vidência é importante ressaltar que você deve saber o que busca antes de se consultar. Por exemplo, se você tem dor nos joelhos vai procurar um ortopedista ou um cardiologista? Sendo assim, se você quer perguntar sobre futuro distante, se quer respostas cheias de magia e mistério, se quer um ambiente místico e roupas a caráter, deve verificar antes se o tarólogo escolhido tem essa abordagem. Muitas vezes o que o consulente precisa é de um mapa astral, não de consulta de tarô. Outras vezes a pessoa quer vivenciar a experiência da vidência e deve se certificar se o tarólogo escolhido usa essa abordagem. Se você quer analisar possibilidades, entender o momento, se conscientizar de qualquer coisa (que seja relacionamento, trabalho, finanças) também deve procurar um profissional que fale sua língua. Veja primeiro o que busca para então achar o profissional certo.

 

Quanto aos jogos e número de cartas é simples. Um bom tarólogo consegue analisar uma única carta com riqueza de detalhes podendo te situar facilmente na questão ou mesmo dar informações importantes que te ajudem a entender muitas coisas ao seu redor. Isso tudo com uma-única-carta. Não pense que jogar as 78 cartas faz o tarólogo melhor ou mais experiente. Não pense também que jogar 5 jogos para a mesma questão irá mudar seu problema ou rever a resposta já vista. Confie no profissional que te atende, esqueça o número de cartas, o jogo, a quantidade de métodos. Afinal, você discute com o médico o número de comprimidos que deve tomar ao dia? Se sim, reveja sua relação com a autoridade, talvez você esteja apenas buscando alguém que concorde com você e não esteja preparado (a) para se entregar a uma orientação externa.

 

A questão da cobrança também é simples, só complica esse tema quem gosta de rebuscar a simplicidade. Alguns profissionais são videntes e nasceram com esse dom, sim. Isso não significa que eles não invistam em seus talentos, não significa que não tenham contas para pagar e que não se desgastem nessa função. Portanto, naturalmente, tem um valor e o valor que impera entre os seres humanos é o valor monetário. Sem isso não vivemos, simples assim. Além disso, o profissional que não tem o tão falado dom (meu caso, por exemplo) também estuda, se dedica, se desgasta, investe bastante. Se não fosse nenhuma dessas razões, teria outro motivo simples também: é trabalho, não um hobby. Claro que tem um valor. Se você quiser algo sem custo busque instituições que ofereçam práticas gratuitas. Mas antes de fazer isso te oriento a repensar qual é sua relação com a espiritualidade e por que você acha que deveria receber orientações e se beneficiar com o trabalho de terceiros sem ter qualquer tipo de troca ou remuneração. Talvez seja hora de rever sua posição no mundo, na vida e rever a forma como enxerga o papel de outras pessoas em seu caminho.

 

Profissionais cobram valores distintos porque não existe uma tabela que determine um piso a ser cobrado. Muitas coisas são levadas em consideração, como a cidade onde o profissional atende, a região, o que é oferecido em consulta, o tempo de duração, dentre outras razões. Cada um tem sua metodologia e regras, portanto, usar um profissional para ser comparado ao outro pode ser totalmente ineficaz. E não se esqueça: não é porque alguém cobra menos que não sabe jogar direito (ou que vai se adequar à abordagem que você procura); e não é porque alguém cobra super caro que joga super bem. Não escolha pelo preço, escolha pela proposta. Caso seu único problema seja a questão financeira em relação ao profissional escolhido pode ser um bom momento para rever a forma como enxerga prestadores de serviços e como lida com a valorização de pessoas e propostas.

 

O pagamento antecipado acontece porque é uma forma de reforçar o compromisso que foi firmado no agendamento. É você investindo em algo importante para si e dando um voto de confiança ao profissional. Por isso, é uma prática que preserva a ambos: mostra sua intenção e comprometimento com o profissional e garante que o profissional também esteja comprometido com você, com seu horário ou sua demanda. Sem mencionar a quantidade de pessoas que tentam atrasar pagamentos ou sair “ganhando” em relações comerciais. O pensamento-cartão-de-crédito (primeiro usufruo, depois pago) quando se trata da própria vida não é salutar. Se deseja seriedade para tratar sua vida, aja com seriedade e tudo fará mais sentido.

 

Finalmente, para quê tantas regras? Então, não são “tantas regras”, são requisitos importantes para garantir uma experiência positiva para você e um desenvolvimento favorável do trabalho a ser oferecido. Assim como toda relação comercial a consulta de tarô segue os mesmos preceitos. Ainda que seus problemas sejam seríssimos é importante que haja comprometimento, responsabilidade, troca, entendimento, empatia. Caso contrário você só estenderá seu desequilíbrio interior para alguém que mal conhece ou que deveria te ajudar (e não ser atingido pelos seus problemas). “No final do jogo, o rei e o peão seguem de volta para a mesma caixa”. A igualdade no tratamento garantem um vínculo maduro.

 

Se você quer ser tratado (a) com respeito, trate os outros com respeito. Se quer seriedade, aja com seriedade. Se precisa de ajuda, contrate alguém capaz para isso. Acima de tudo a relação entre cliente e tarólogo deve ter confiança e responsabilidade porque reflete muito a maneira como esse cliente lida com a vida e a forma como esse tarólogo assume o próprio trabalho. Somos todos indivíduos e a base para qualquer vínculo deve ser a coerência, caso contrário, sua vida vira um commodity e meu trabalho vira um espetáculo nonsense de magia.

 

Kelma Mazziero ®

 

 

Por que a consulta ao tarô precisa de um tempo de duração?

 

As teorias para essa questão são inúmeras, que vão desde as mais políticas até as mais diretas. Alguns defendem o fato de que a leitura flui melhor se for direto ao ponto. Outros afirmam que tempo é dinheiro. Outros, ainda, garantem que deve seguir um tempo semelhante ao da terapia enquanto tem aqueles que acham que deve se cobrar por minuto. Seja isso ou aquilo a questão é que muitas vezes o cliente se ressente e reclama desse aspecto. Hoje em dia, aliás, reclamação para tudo é o que não falta. Por isso cheguei ao ponto de escrever a respeito torcendo para que aqueles que me conhecem ou que leem meus textos compreendam a finalidade dessa intenção.

 

A questão da duração de uma consulta pode ter mil explicações e saídas. Mas é essencial esclarecer que não perpassa apenas a questão de direitos/deveres e que, se for estabelecida uma duração, ela deverá certamente ter um motivo. Sendo assim, posso falar por mim e pela forma como atuo na profissão, que determino um tempo de duração porque sei que esse tempo é suficiente. Passar do tempo estabelecido é apenas querer espremer algo que já foi dito. Não funciona nem para o profissional e nem para o cliente porque o profissional se esgota (acredite, o profissional é um indivíduo e também sente fome, sono, cansaço) e o cliente não vai reter tanta informação em tanto tempo. É uma situação lógica: ouvir a mesma coisa de mil formas diferentes não vai mudar a mensagem e espremer o profissional não vai dar a sensação de que você “aproveitou mais” da consulta e do tarólogo. Essa conduta não é prática e nem empática. É claro que não precisa ter um relógio despertador que toca e no exato momento do toque desligamos e paramos tudo, mas esticar isso até o dobro do tempo é como querer dobrar o tempo de uma aula (só desgasta e não se aprende mais). Afora tudo isso, se você contratou aquele profissional deve seguir as coordenadas dele, caso contrário além de faltar respeito faltará também confiança. Acredite em quem você contratou e na proposta oferecida.

 

Minha visão sobre a interação em consulta é que é importante o cliente saber aquilo que irá avaliar ou o objetivo naquele trabalho. Não se trata de terapia, então, não há tempo hábil de questionar ou provar por 50 minutos que sou digna de confiança. Também não é um fast food onde se adivinha tudo correndo para se pagar menos. Se trata de criar uma relação empática e confiável com aquela pessoa que irá te auxiliar na compreensão de uma situação. O tempo e o formato o profissional define, uma vez que tem experiência para tal e é importante que se trace a meta para que o aproveitamento seja o melhor.

 

Reclamar, tentar mudar o formato ou esquema, questionar ou duvidar só mostram que talvez aquele não seja o profissional que você procura. Ou, ainda, pode ser que você não esteja num bom momento de se colocar nas mãos de alguém que irá te avaliar e analisar sua vida. Essa inclusive é uma das explicações pelas quais as indicações nem sempre funcionam bem. Não basta ter boa indicação ou pagar tarólogo famoso, é preciso que haja troca e entendimento além da identificação com a linguagem utilizada. Por isso, se o profissional determinou um tempo e tem um esquema de trabalho, respeite. Caso contrário, reveja sua escolha e busque alguém que esteja dentro de suas necessidades ou expectativas. E lembre-se sempre do mais importante: uma consulta de Tarô não é um produto que se compra num mercado, por isso, não use as mesmas regras porque a decepção no serviço estará garantida.

 

Kelma Mazziero